Lumos

#lumosmaxima

1 -  Literatura se faz na universidade? - Ótima reflexão sobre oficinas literárias e cursos universitários para escritores, no blog da Cia das Letras.

2 -  O papel da família enquanto mediadora de leitura - Um bom guia de como incentivar os pequenos a se tornarem leitores, no blog Livros e Afins.

3 -  Livro de receitas para mulheres tristes - Uma resenha linda e repleta de reflexões, lá no blog O batom de Clarice.

4 -  Preconceito literário: aqui não! - Um texto excelente e essencial para todos, no blog No mundo editorial.

5 -  Livros para serem DEVORADOS - Um estúdio de design de Hamburgo, criou um livro de receitas que o cozinheiro pode comer inteirinho depois de preparar o prato, lá no blog da L&PM.

#nox

Balzac e a Costureirinha Chinesa


“Até aquele encontro roubado com Jean-Christophe, minha pobre cabeça educada e reeducada, simplesmente ignorava que se pudesse lutar sozinho contra o mundo inteiro. O flerte se transformou em grande amor. Até mesmo a ênfase excessiva à qual o autor havia sucumbido não me parecia nociva à beleza da obra. Sentia-me literalmente devorado pelo fluxo poderoso de centenas de páginas. Para mim, era o livro sonhado: ao término da leitura, nem a maldita vida, nem o maldito mundo poderiam ser como antes.” (p. 94)

O Desafio Literário tem se mostrado, cada vez mais, um motivador para que eu me permita sair da zona de conforto literário na qual me refugio, o tema do mês de abril (autores orientais) por si só já era um grande movimento nesta direção, mas eu não poderia supor o quanto ele seria enriquecedor, a primeira leitura já havia sido encantadora e esta segunda obra veio confirmar esse fato.
O livro do chinês Dai Sijie, radicado há 15 anos na frança, me conquistou primeiro pelo título, minha clara predileção por livros com nomes pouco óbvios falou alto, mas uma rápida leitura na sinopse, ou melho dizendo no primeiro páragrafo dele me fizeram tomar a decisão de incluir essa obra no desafio, e que escolha acertada  foi me lançar na leitura desta singela história que é sobretudo sobre o poder transformador da literatura.

“O que é a reeducação? Na China vermelha, no fim de 68, o Grande Timoneiro da Revolução, o presidente Mao, lançou um dia uma campanha que iria mudar profundamente o país. As universidades foram fechadas, e “os jovens intelectuais”, quer dizer, os secundaristas, foram mandados ao compo para serem reeducados por camponeses pobres” (p. 8)

A história, como se pode verficar no excerto acima, se passa no fim da década de 60, quando Mao Tse Tung lançou a chamada Revolução Cultural. Uma das diretrizes da Revolução impactou diretamente a vida de dois jovens: o narrador da história e seu amigo Luo, de 17 e 18 anos respectiviamente, eles foram mandados para um montanha chamada “Fenix Celestial” sob a responsabilidade do chefe da aldeia, para serem reeducados porque seus pais eram “ intelectuais inimigos do povo“.
A rotina extenuante que inclui trabalhos pesados em lavouras e mina de carvão dos dois jovens só é interrompida porque o chefe da aldeia gosta de ouvir histórias e se encanta com a capacidade narrativa de Luo, o que permite aos amigos irem esporadicamente a cidade para assistirem filmes no cinema local para depois contarem na aldeia. Estes são os pequenos momentos de felicidade dos dois. 
No entanto dois acontecimentos vão mudar ainda mais a vida dos dois jovens: conhecer a costureirinha e a descoberta de uma valise repleta de inestimável tesouro. São estes dois marcos que modificam profundamente a visão de mundo e o cotidiano dos três jovens. Ao se dedicarem à leitura dos livros de Balzac, Baudelaire, Dostoievski, Dickens, Dumas entre outros, eles abrem seus horizontes para além da realidade imposta por Mao, páginas e mais páginas lidas, forjam uma sensação de autonomia que os olhares em direção ao mundo não é mais enevoado com as lentes impostas pelo regime mas sim com as lentes da criticidade. As mudanças que a leitura provoca nos três amigos é tão profunda quanto imprevisível, como amargamente comprova Luo, que em uma tentativa de “civilizar” a costureirinha através da leitura das obras ocidentais, não poderia supor o quão libertadora seria a experiência.
Balzac e a Costurerinha Chinesa é uma obra encantadora e singela, mas de uma força que surpreende, pois mesmo aqueles para quem a literatura é notoriamente libertadora são pegos de surpresa pela dimensão do poder transformador que ela tem.
SIJIE, Dai. Balzac e a Costureirinha Chinesa. Tradução de Véra Lucia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

Essa leitura faz parte do Desafio Literário 2012 cuja temática do mês de abril era a leitura de autores orientais.

Aqui é possível ler as resenhas dos outros participantes.

O livro tem um versão cinematográfica, roterizada e dirigida pelo próprio Dai Sijie, e que traz como bônus informações sobre os dois jovens e o vilarejo, vinte anos depois.

Livros no parque

Essa simpática biblioteca fica em um parque em Bogotá, Colômbia e faz parte de um programa criado a cerca de 10 anos para ajudar a promover a alfabetização em todo o país. Hoje existem 47 bibliotecas espalhadas pela cidade. Cada cabine fica aberta por cerca de 12 horas semanais, geralmente durante o fim de semana, nesse tempo um voluntário fica no local para prestar apoio aos usuários, inclusive auxiliar as crianças em seus deveres de casa.

Haroun e o Mar de Histórias

"Uma coisa ele sabia: o mundo real era cheio de mágica, de modo que os mundos mágicos podiam muito bem ser reais" (p.43)

A despeito da desconfiança que tive ao incluir alguns título na minha lista, o Desafio Literário 2012 tem me proporcionado surpresas muito agradáveis, primeiro foi em março com as leituras de O Jardim de Ossos e O Perfume, e agora em abril com a leitura de Haroun e o Mar de Histórias, Salman Rushdie, esse livro estava há dois anos na minha estante, li uma resenha da Izze e fiquei encantada com o que ela escreveu, mas no fim acabou que a obra ficou no esquecimento até agora.

Salman Rushdie escreveu esse livro para o filho mais velho, e como esse menino deve ter gostado da aventura encantadora que seu pai criou.

Nela somos levados ao país de Alefbey mais especificamente para uma cidade tão triste, mas tão triste que esqueceu o próprio nome, mas como toda regra tem uma excessão lá vive a família de Rashid Khalifa, o contador de histórias, ele, sua esposa Soraya e seu filho Haroun são felizes. Porém alguma coisa deu errado.

"No dia em que Soraya parou de cantar no meio de um verso, como se alguém tivesse desligado uma chave, Haroun imaginou que alguma complicação estava começando. Mas ele nem desconfiava o quanto essa complicação era complicada" (pg. 13)

De uma hora para outra Haroun vê sua vida virar de ponta cabeça, e para piorar ele acredita que é culpado de tudo, mal sabe ele que a maior aventura de todas está apenas começando, pois ao se lançar em uma jornada para tentar devolver a seu pai o dom da palavra, ele vai descobrir que os problemas são muito mais profundos e abrangentes do que ele poderia imaginar.

A descoberta da existência de uma terra mágica, onde se localiza o Mar de Histórias, cujas águas fornecem todo estoque de histórias do mundo, faz com que Haroun mergulhe em um mundo fantástico, onde pássaros-aviões falam sem mecher o bico, onde o exercíto é composto por Páginas, e os seres mais fantásticos e interessantes habitam.

"… qual é o sentido de se dar às pessoas Liberdade de Expressão, e depois dizer que elas não devem utilizá-la? E não é o Poder das Palavras o maior poder de todos os Poderes? Então decerto deve ter plenas garantias de exercício." (p.67)

A jornada de Haroun se reveste de fantasia para falar de temas pertinentes e atuais, mas em nenhum momento se torna enfadonha, pois Rushdie sabe como poucos usar as palavras com tal maestria que a narrativa é ao mesmo tempo simples e complexa, os pequenos, ainda sem bagagem para compreender as metáforas se deliciam com a aventura, os mais maduros também, mas com o adcional de perceber a intencionalidade de cada frase sarcástica. Enfim esse é o tipo de livro que torna a tarefa de falar sobre ele difícil que ela mais se paresse com um "PCD+P/EX: um Processo Complicado Demais Para Explicar".

"Pra que servem essas história que nem sequer são verdade? (p.17)

O próprio Rushdie nos responde essa pergunta ao tecer uma trama tão rica e encantadora: servem para que possamos manter acesa dentro de nós a chama que nos ajuda a seguir em frente.

RUSHDIE, Salman. Haroun e o Mar de Histórias. Paulicéia: São Paulo, 1991.

Essa leitura faz parte do Desafio Literário 2012 cuja temática do mês de abril era a leitura de autores orientais.

Aqui é possível ler as resenhas dos outros participantes.