A Evolução de Calpúrnia Tate

Sem título-1A Evolução de Calpúrnia Tate me chamou atenção pela capa, fiquei encantada com a arte em preto e amarelo. Um rápida leitura da sinopse me fez decidir dar um chance para o livro e foi com uma alegria pulsante que durante o percurso dessa leitura me dei conta de que havia sido presenteada com uma das histórias mais doces, singelas e fortes que fiz no primeiro semestre desse ano.

O livro nos conta a história de Calpúrnia Virgínia Tate, ou simplesmente Callie Vee, uma menina de 11 anos, que vive no Texas em 1899. Não é difícil imaginar que a vida não era muito fácil para uma menina nessa época, ainda mais quando se é a única filha entre sete filhos.
Ela é uma menina muito curiosa e observadora, e quando seu irmão Harry lhe presenteia com uma caderneta de couro vermelho, afirmando que ela é uma naturalista em formação, inicia uma aventura para se tornar mesmo uma naturalista sem nem ao menos saber o que isto significa.

Depois do e ganhar a caderneta ela começa a registrar hipóteses e questionamentos sobre suas observaçãos da natureza e a pergunta propulsora da “evolução” de Calúrnia surge quando ela encontra uma espécie de gafanhoto diferente dos demais, por que eles são maiores e com uma cor amarelada é algo que intriga a menina de tal maneira que ela parte em busca de respostas que a observação não dá conta de responder.

Essa busca faz com que ela procure o livro A Origem das Espécies, de Charles Darwin na biblioteca da cidade, o que causa um estranhamento muito grande da bibliotecária.  O que Calpúrnia não fazia ideia é que seu avô, Capitão Walter Tate, um naturalista considerado pela família como esquisito e excêntrico, tem um exemplar do precioso livro. A curiosidade sobre os gafanhotos aproxima os dois e juntos começam a construir uma relação muito diferente da que tinham até então.

O livro é uma dessas leituras que acalentam o coração, é delicioso acompanhar o crescimento do companherismo e a amizade do avô e da neta através da mútua paixão pela ciência. Calpúrnia é uma cientista nata, uma menina à frente de seu tempo, que amadurece muito com a mediação do avô, ampliando seu conhecimento do mundo, isso também faz com que ela perceba o quanto o papel designado à mulher em 1899 é muito diferente daquele que ela almeja.

“Limpei a garganta: – Vovô… – depois, perdi a coragem.
– Sim, Calpúrinia?
– As meninas… As meninas também podem ser cientistas – nós dois fingimos não ouvir o tremor na minha voz. – Não podem?
Ele deu uma boa baforada no seu charuto, depois bateu a cinza.
(…)
– Você lembra de quando nos sentamos perto do rio alguns meses atrás e conversamos sobre Copérnico e Newton?
– Lembro – como é que eu poderia me esquecer?
– Nós não falamos sobre o elemento da senhora Curie? Sobre a coruja-do-mato da senhora Maxwell?
– Não.
– Sobre as equações da senhorita Kovalevsky? As viagens da senhorita Bird às Ilhas Sanduíche?
– Não.
– Quanta ignorância – ele murmurou, e logo lágrimas saltaram aos meus olhos. Eu era uma menina tão ignorante? Ele continuou: – Por favor, perdo-me pela minha ignorância, Calpúrnia. (…) Deixe-me contar sobre essas mulheres.”  (pg. 291-291)

Essa leitura me tocou profundamente de muitas formas, principalmente pela empatia à primeira vista que tive com Calpúrnia, tenho um fraco por protagonistas femininas que se sentem deslocadas e diferentes quando na verdade são pioneiras, e que se empoderam através da ciência e do conhecimento rompendo paradigmas. Outro ponto que me  agradou foi que esse processo de evolução de Calpúrnia se deu através da relação linda dela com o avô, Capitão Tate é um rabugento carismático que pulsa paixão pela ciência de tal forma que contagia.

“O vagalume de Travis foi, na verdade, o único avistado naquela noite. Embora eu soubesse que dali a um ano os vagalumes voltariam, pareceu a extinção da espécie. Como é triste ser o último da sua espécie, sinalizando no escuro, sozinho, para o nada. Contudo, eu não estava sozinha, estava? Tinha aprendido que havia outras do meu tipo, lá fora.” (pg. 293)

A Evolução de Calpúrnia Tate é daqueles livros que apesar de terem uma história fechada  deixam um gosto de quero mais, sendo assim fiquei muito feliz ao saber que o livro tem uma continuação (The Curious World of the Calpúrnia Tate) ainda sem previsão de lançamento no Brasil. Reforço o encantamento que tive ao ler essa história que pode enganar à primeira vista mas que se mostra uma jornada de auto-conhecimento e do poder de sonhar e  de lutar por aquilo em que se acredita.

KELLY, Jacqueline. A evolução de Calpúrnia Tate. São Paulo: Editora Única, 2014.

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