Ler para crescer: Os lobos dentro das paredes

"Se os lobos sairem de dentro da parede está tudo acabado"

Quando o guri anunciou que queria ler uma história de terror logo pensei em Os lobos dentro das paredes do Neil Gaiman, fazia tempo que eu queria ler uma obra dele escrita para crianças e essa seria uma ótima oportunidade.

Lucy mora com os pais e o irmão em um casarão antigo e começa a ouvir barulhos estranhos dentro das paredes, são ruídos "furtivos, rastejantes e amarrotados", ela acredita que existem lobos dentro das paredes, mas seu pai acha que são ratos, o irmão fala em morcegos e a mãe está certa de que o que ela ouve são apenas camundongos. Diante da aflição crescente e insistente da menina eles dizem: "se os lobos saírem de dentro da parede está tudo acabado". Gaiman é conhecido por trazer para seus livros temáticas pouco exploradas no universo infantil e no caso desta obra a insegurança é focada de forma muito interessante pois os lobos dentro da parede representam que a casa já não é mais sinônimo de proteção, nos fazendo mergulhar em uma história que é aterradora muito mais pelos sentimentos vividos pelas personagens do que pela figura dos lobos.

Uma das coisas mais legais é a forma como Lucy enfrenta os seus medos e o perigo, é o tipo de história que realmente assusta, mas também diverte e traz nas entrelinhas um importante exemplo de superação através da inteligência e da coragem. Dave McKean é o responsável pela arte do livro e com seu traço inconfundível fez uma obra belíssima aos olhos, o ar sombrio, sinistro e assustador complementa o texto de forma perfeita.

GAIMAN, Neil. Os lobos dentro das paredes. Tradução John Lee Murray. Rio de Janeiro: Rocco, 2006

Que venha 2012!

Oficialmente já é quase 2012 e gostaria de agradecer a todos os leitores do Bibliophile pela companhia, pelo incentivo e principalmente pela troca que a cada dia enriquece mais e mais a minha vida. Meus desejos para vocês em 2012 estão todos na fala do meu autor predileto, Neil Gaiman:

"Que o seu próximo ano seja repleto de magia e sonhos e loucura boa. Espero que você leia alguns ótimos livros e beije alguém que pensa que você é maravilhoso, e não se esqueça de fazer alguma arte – escrever ou desenhar ou construir ou cantar ou viver como só você pode. E espero que, em algum momento no ano que vem, você surpreenda-se."

Meme Literário – Dia 22

Dia 22 – Cite um ou dois livros com títulos que você acha interessante. Você costuma escolher livros pelo título?

Eu amo títulos inusitados e longos. Não escolho um livro pelo título, mas se ele me chamar atenção vou atrás para saber mais sobre o livro, já aconteceu isso e acabei descobrindo que um ótimo título era só a porta de entrada para um ótimo livro. Alguns títulos que adoro:

Extremamente alto, incrivelmente perto, Jonathan Safran Foer – Eu amo demais esse título, acho impactante, gosto do uso do superlativo e do jogo de palavras.

A solidão dos números primos, Paolo Giordano Acho este título tão melancólico e tão instigante, eu adoro números primos, e adorei o jogo de linguagem que o autor usou aqui.

Lugar Nenhum, Neil Gaiman – Também amo, acho muito legal porque ele fala tanto sobre o livro só com duas palavras, mas a gente só descobre isso lendo 😉

Meme Literário – Dia 14

Dia 14 – Se você pudesse fazer uma pergunta para o seu escritor preferido (vivo ou morto), qual seria o escritor seria e qual seria a pergunta?

Uauuuu que pergunta difícil, como escolher entre Neil Gaiman e Terry Pratchett? Como? Como? E como se não bastasse ter que escolher um dos dois ainda é uma pergunta só, até parece que eu ia perguntar só uma coisa né?! Para não deixar a brincadeira sem graça resposta, vou hipoteticamente escolher o Pratchett que dos dois é o que menos conheço e eu perguntaria para ele que tipo de sentimentos despertam nele a consciência de que tudo que ele escreveu tem um impacto absurdo nos leitores que ele tem mundo afora.

p.s. esse foi o dia mais difícil para mim responder, Tatá isso não é que se faça não 😉

Meme Literário – Dia 02

Dia 02 – Qual foi o último livro que leu e qual é o próximo livro que lerá? Fale um pouco sobre eles.

O último que li foi Coraline, Neil Gaiman, fato notório que amo esta história, tanto que foi uma releitura. Coraline é uma guria de espírito explorador que se vê em um mundo paralelo nada legal e tem que usar toda a sua inteligência e astúcia para conseguir sair de lá e salvar seus pais, da Outra Mãe, dizer mais estragaria todo o prazer da leitura, então incauto leitor se ainda não tivestes este prazer, te joga.

O próximo que vou ler será Tudo se Ilumina, Jonathan Safran Foer, faz tempo que quero ler esse livro e esse autor, mas tenho uma péssima mania de ficar adiando a leitura para prolongar a expectativa elevada de que vou amar a leitura, ao invés de me deliciar com a leitura em si, daqui uns dias espero mergulhar neste “romance construído sobre três narrativas completamente diferentes, que seguem paralelas e entremeadas. Alguns capítulos mostram Jonathan Safran Foer, personagem fictício homônimo do autor, em sua viagem à Ucrânia em busca de Augustine. Em sua jornada, ele conta com a ajuda do estranho Alexander Perchov, jovem ucraniano que lhe serve de guia e intérprete. Outros capítulos são páginas do livro de não-ficção escrito pelo personagem, contando a história de sua família desde o nascimento da aldeia Trachimbrod, no século XVII, até sua viagem de pesquisa ao local. A terceira narrativa é composta por cartas de Alexander Perchov, em que ele comenta o que já leu do tal livro, dá dicas ao autor e relembra os momentos que passaram juntos.”

Lugar Nenhum

"Richard havia percebido que os acontecimentos são seres covardes. Eles nunca acontecem sozinhos: vêm numa matilha, pulando juntos sobre alguém ao mesmo tempo."

Lugar Nenhum não nasceu prosa, nasceu roteiro de uma série de TV, em seis capítulos, Neil Gaiman o escreveu em 1997, para a rede britânica BBC. Depois ela virou História em Quadrinhos e só depois desse longo caminho que virou livro.

A história é centrada em Richard Mayhew, um escocês que vê sua vida virar do avesso depois de ajudar uma desconhecida que encontrou ferida em uma calçada de Londres. Até esta noite ele tinha uma vida pacata, um bom emprego e era dominado pela noiva controladora. Mas após ajudar a jovem Door, ele descobre na manhã seguinte que não tem mais nada. No trabalho ninguém o reconhece, sua noiva até tenta, mas não lembra quem ele é, seu apartamento é alugado com ele dentro da banheira, nem mesmo o caixa eletrônico reconhece seu cartão bancário. Diante desta situação tão bizarra ele parte em busca das estranhas personagens que julga, e de fato são, responsáveis por tudo que está acontecendo com ele, e assim parte para um mundo até então desconhecido: a Londres de Baixo.

Nesta nova Londres ele será confrontado com situações ainda mais bizarras dos que as que o levaram até ali, são tantas informações novas com as quais lidar, que Richard, em uma tentativa de manter um pouco a sanidade começa um diário mental:

"Querido Diário, começou ele. Na sexta-feira eu tinha um emprego, uma noiva, uma casa e uma vida normal (bom, pelo menos até o ponto em que a vida consegue ser normal). Então eu achei uma moça sangrando na calçada e tentei bancar o Bom Samaritano. Agora não tenho mais noiva, casa ou emprego, fico andando a esmo a uns sessenta metros abaixo das ruas de Londres e minha expectativa de vida é tão longa quanto a de uma drosófila suicida."

Uma das coisas que achei interessante no livro é o papel que tem as linhas de metrô, na Londres de Baixo os nomes das estações tem conotações reais, em “Blackfriars” encontramos os monges negros e em “Seven Sisters” existem mesmo sete irmãs. Já uma coisa que me chateou no livro diz respeito à tradução, não gosto quando parte dos nomes próprios ganham traduções e outros não, até entendo os motivos da tradutora para optar por fazer assim, mas continuo estranhando que “Door” seja filha de Pórtico.

Foi impossível ler as aventuras de Richard, Door e do Marquês de Carabas sem me lembrar de outros dois livros, primeiro de Stardust, do próprio Gaiman que também conta com um heróis às avessas, uma menina que cai de paraquedas na vida dele e um mundo paralelo que sempre esteve perto sem que ele tomasse conhecimento disso. O segundo foi Coração de Pedra, de Charlie Fletcher, que além dos elementos acima, também se passa em Londres. As histórias em si são bem diferentes e me agrada descobrir nestas leituras como são múltiplos os olhares sobre uma estrutura tão parecida.

Duas pessoas me disseram que gostei tanto de Lugar Nenhum porque ainda não li as melhores obras em prosa de Gaiman, no caso Deuses Americanos e Os filhos de Anansi, mas fico feliz com isso, mesmo com expectativas altas, adorei a história que para mim é acima de tudo sobre a fantástica viagem que podemos fazer ao mundo de medos e surpresas que há em nós mesmos, e se os outros dos livros ali na fila de espera forem ainda mais legais, só tenho a ganhar 😉

GAIMAN, Neil. Lugar Nenhum. Título original: Neverwhere, tradução de Juliana Lemos. São Paulo: Conrad, 2010.